Equilíbrio
da Tireóide.
Ela está
no centro de tudo. Ajuda a regular o peso, o humor, o trânsito intestinal e até
os batimentos do coração. Localizada no pescoço, a tireoide produz hormônios
que administram diversas engrenagens do organismo. Se trabalha lenta ou
acelerada demais, podemos padecer literalmente das unhas dos pés aos fios da
cabeça.
A regência é realizada por meio dos seus hormônios, que regulam a forma como o organismo usa e armazena energia: a tri-iodotironina (T3) e a tiroxina (T4). Mas a tireoide também recebe comandos de outra glândula, a hipófise, que fica no cérebro e libera o hormônio estimulador da tireoide (TSH).
É com
essa ordem que começa a sintetizar o T3 e o T4 dentro do pescoço. Uma vez na
circulação, “os hormônios da tireoide entram nas células e fazem com que elas
funcionem bem”, explica o endocrinologista Alexei Volaco, professor da
Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).
Essas
siglas não merecem ser conhecidas à toa. Em geral, se os níveis de TSH não
batem com o que é esperado para os hormônios tireoidianos, se suspeita de algo
errado — são exames de sangue que apuram isso.
TSH alto com T3 e T4 baixos é sinal de hipotireoidismo, desequilíbrio que, pelas estimativas, afeta um em cada dez brasileiros. No hipertireoidismo, presente em 2% da população, acontece o contrário: há tanto T3 e T4 no sangue que o TSH, que instiga a tireoide a trabalhar, é menos necessário e acaba diminuindo.
A diversidade e a inespecificidade dos sintomas não raro dificultam o diagnóstico, e mesmo acertar e seguir o tratamento não é algo tão simples. Até 40% dos brasileiros com hipotireoidismo, o distúrbio na glândula mais prevalente, não estão com um controle adequado, segundo dados apresentados no último Encontro Brasileiro de Tireoide.
Embora seu formato lembre uma borboleta, a estrutura deve seu nome à palavra grega thyreos, que quer dizer “escudo”. As metáforas e comparações não param aí. “No corpo, cada órgão funciona como um músico, mas em uma orquestra eles precisam tocar em conjunto. Quem faz os arranjos e dita o ritmo é o maestro. E é isso o que a tireoide faz”, resume o endocrinologista José Augusto Sgarbi, presidente do Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem).
As
projeções sobre o número de pessoas acometidas por esses problemas não são
superprecisas, pois os critérios utilizados nos estudos e as características do
grupo examinado podem variar — pessoas com uma dieta deficiente em iodo, por
exemplo, correm maior risco, tanto é que o mineral é adicionado ao sal de
cozinha.
De todo
modo, nas duas situações, o maestro não está na melhor forma e a orquestra pode
tocar fora de ritmo. No dia a dia, devido aos sintomas pouco específicos, o
hipotireoidismo em particular acaba sendo confundido com outras doenças e menos
detectado.
Um exame
de sangue tira a dúvida, mas, antes dos 40 anos, idade a partir da qual a
encrenca se torna mais comum, é difícil fazer um check-up da tireoide. A
solução passa por uma boa investigação médica, em que o paciente deve informar,
entre outras coisas, se tem histórico familiar de disfunções e procedimentos na
glândula.
O que
destrambelha a tireoide
As
principais situações que afetam a glândula (e o resto do corpo):
Hipotireoidismo
A
glândula produz menos hormônio do que deveria. Como a tireoide regula o
metabolismo, quando isso ocorre o organismo tende a ficar mais devagar. O
tratamento é a reposição hormonal pelo resto da vida.
Hipertireoidismo
É o
oposto: a tireoide libera hormônios demais, acelerando o metabolismo. A
detecção é um pouco mais fácil, uma vez que os sintomas são mais específicos
(caso da perda de peso). Remédios e outras terapias equilibram as coisas por
aqui.
Nódulos
Costumam
aparecer com o envelhecimento e, em geral, são benignos e pequenos, sem gerar
risco nem exigir remoção. Pode ser necessário fazer acompanhamento caso
aumentem de tamanho ou passem por transformações.
Câncer
Quando o
nódulo é maligno, o caminho normalmente é extrair a tireoide. A maioria dos
tumores ali é pouco agressiva e tem alta taxa de cura. Após a retirada da
glândula, é preciso fazer reposição hormonal pela vida inteira também.
À caça do
hipotireoidismo
Um dos
sinais mais visíveis do hipotireoidismo é o ganho de peso, resultado de um
metabolismo mais lento e da retenção de líquidos. Esse aumento, porém, não
costuma ser tão acentuado. “É preciso deixar claro que o hipotireoidismo não é
causa de obesidade”, ressalta Sgarbi. “Mas ele pode, sim, piorar a situação e
dificultar a perda de peso”, complementa.
Quando há
um déficit na produção de T3 e T4, ainda que o indivíduo coma menos, o corpo
gasta menos energia. E os efeitos desse ritmo mais devagar são sentidos por
vezes nos outros instrumentos da orquestra.
A alteração nos hormônios é capaz de causar
constipação, baixar a pressão e reduzir os batimentos cardíacos e a função
renal. “Pacientes com a doença não controlada também relatam cansaço, desânimo,
indisposição e sonolência excessiva”, conta o médico da Sbem.
Uma das
principais causas do hipotireoidismo é a chamada tireoidite de Hashimoto,
distúrbio autoimune que induz a produção de anticorpos contra as células da
glândula. No geral, a carência dos hormônios é até dez vezes mais frequente nas
mulheres.
A ciência
ainda não conseguiu determinar 100% o motivo, mas se acredita que outras
mudanças hormonais relacionadas ao ciclo reprodutivo estejam envolvidas.
Os
desarranjos podem aparecer com a gestação ou principalmente com a menopausa —
e, aí, sintomas parecidos podem embolar as coisas e retardar o diagnóstico. Por
falar nelas, cabe acrescentar que problemas tireoidianos também atrapalham a
fertilidade.
Embora as
pessoas tenham pavor de radiação por relacioná-la a danos na tireoide, o fato é
que ela não é um dos elementos mais decisivos na maioria das situações.
“Quando
falamos de radiação como fator de risco, isso se refere geralmente a casos em
que houve uma grande exposição, sobretudo na infância”, elucida a radiologista
Ana Christina Melichar, coordenadora de ultrassonografia do Laboratório Richet,
no Rio de Janeiro.
Pelas
pesquisas, fatores como idade, gênero e genética têm uma influência bem maior.
O DNA, aliás, mexe tanto com o risco de desenvolver uma disfunção ou tumor ao
longo da vida quanto com o aparecimento de uma doença específica de bebês, o
hipotireoidismo congênito, detectado já no nascimento. Ele afeta uma em cada 3
mil crianças e é uma das condições identificadas (e tratadas) graças ao teste
do pezinho, feito na maternidade.
Em busca
do ritmo perdido
Uma vez
diagnosticado, o hipotireoidismo tem tratamento relativamente simples e
inclusive disponível na rede básica de saúde: basta repor os hormônios, em
especial o T4, também conhecido pelo nome genérico de levotiroxina.
Por que ele é o preferido? “O T4 é mais seguro
e mais estável, e vai sendo convertido em T3 pelo corpo conforme a
necessidade”, esclarece Sgarbi.
É uma
forma de resguardar o organismo, fazendo com que a versão ativa em si (o T3) só
entre na equação quando for realmente preciso. Mas o “relativamente simples”
pode ser mais complicado na prática.
O índice
de adesão ao tratamento e controle do quadro, como mostram novos levantamentos,
está longe do ideal. Para começo de conversa, a recomendação é fazer o
acompanhamento com um endocrinologista. Já o acesso à levotiroxina em si é
fácil e o desafio não é tanto iniciar o tratamento, mas garantir sua manutenção
anos a fio.
Além de
ser algo para a vida toda, a dosagem varia não só de pessoa para pessoa mas ao
longo do tempo. O monitoramento com exames deve ocorrer periodicamente e os
níveis hormonais precisam ser ajustados no mínimo a cada seis meses com o
médico.
Tais cuidados evitam que o concerto todo
desafine e afastam incômodos típicos do hipotireoidismo, como a fadiga e a
retenção de líquido.
Convém
aproveitar o momento para soar um alerta dos próprios profissionais de saúde:
tem gente que, mesmo sem problemas na tireoide, vai atrás de comprimidos de T3
para emagrecer ou até ficar “mais ligado”.
O fenômeno é corriqueiro nas redes sociais e
em outros sites. Além dos riscos para o corpo de um uso fora de contexto, a
procedência do produto é questionável: esses remédios costumam ser manipulados
e nem sempre passam por controle de qualidade.
“Quem
toma até pode se sentir mais ativo e ter a impressão de um bem-estar
momentâneo, mas, no futuro, isso vai cobrar uma fatura”, avisa o
endocrinologista da Sbem. A conta inclui problemas cardíacos graves, que podem
levar à morte.
Para
tratar direito
Como não
tropeçar no tratamento do hipotireoidismo:
Uso em
jejum
A
reposição do hormônio deve ser feita de estômago vazio para que o remédio seja
mais bem aproveitado pelo organismo.
Melhor
horário
Médicos
recomendam tomar pela manhã logo ao acordar, no mínimo 30 minutos antes de se
alimentar.
Ingestão
isolada
Se
tomados em conjunto, alguns fármacos, como amiodarona e lítio, podem interferir
no funcionamento da glândula.
Prefira o
pronto
Especialistas
não orientam o uso de hormônios manipulados. Equívocos na dosagem comprometem o
tratamento.
Exames de
rotina
A
avaliação médica e os exames de sangue de tempos em tempos conferem se a
terapia está surtindo efeito.
No rastro
do hipertireoidismo
Embora
seja menos frequente que o distúrbio por trás da queda nos hormônios, o
hipertireoidismo também demanda atenção e cuidado. Como o nome sugere, suas
características são opostas às do hipotireoidismo: a glândula fica ativa demais
e, como consequência da explosão hormonal, o metabolismo pisa no acelerador.
“Quando
isso acontece, a pessoa fica ligada no 220. Pode ter palpitações,
irritabilidade, insônia, tremor e sentir muito calor”, descreve Volaco. Com o
motor a todo vapor e a temperatura interna lá no alto, vem a transpiração
excessiva. Tudo isso ainda leva a um dos sintomas mais evidentes do
hipertireoidismo, a perda de peso.
Para quem
convive com a condição, o apetite até aumenta, e com frequência se come mais do
que antes, mas a alimentação não parece suficiente para compensar a velocidade
com que o metabolismo começou a operar.
Até o
peito sente. “O gasto energético é maior. O coração começa a trabalhar muito e
vai sofrendo um desgaste que, com os anos, pode resultar em uma insuficiência
cardíaca”, diz Sgarbi, que também é professor da Faculdade de Medicina de
Marília, no interior paulista.
Aliás, em
meio às tantas consequências do hipo e do hipertireoidismo, os problemas
relacionados ao coração são um dos grandes pontos em comum: por razões
distintas, tanto um quanto o outro podem levar a um descompasso no músculo
cardíaco.
Com a enxurrada de hormônios, porém, os
perigos tendem a ser mais imediatos e graves, com o surgimento de arritmias
potencialmente fatais.
Menos mal
que, no comparativo com o seu contrário, o hipertireoidismo costuma ser mais
fácil de diagnosticar. “Os sintomas geralmente são aparentes. Não é como no
hipotireoidismo, que acaba sendo uma doença mais mascarada”, afirma o
endocrinologista.
Além
disso, em torno de sete a cada dez casos são decorrentes da doença de Graves,
uma enfermidade autoimune que faz a tireoide trabalhar mais e normalmente
aparece em outros membros da mesma família — ou seja, se algum parente foi
diagnosticado, vale ficar de olho.
O
tratamento varia de acordo com a causa e a gravidade do quadro, mas existem
três caminhos principais: medicamentos para frear a tireoide acelerada,
iodoterapia (uso de iodo radioativo, que é absorvido pela tireoide e a destrói)
ou remoção da glândula por meio de cirurgia.
Como a
ideia é inibir o funcionamento exagerado da tireoide, com frequência o
resultado será o oposto do problema inicial: o hipotireoidismo. “Mas é muito
melhor ter hipotireoidismo do que continuar com hipertireoidismo não tratado”,
argumenta Sgarbi, lembrando que tanto o tratamento quanto as consequências,
nesse cenário, são mais simples de lidar.
Nos
quatro cantos do corpo
Se a
tireoide produz hormônios de mais ou de menos, vários órgãos sentem o baque:
Pele e
cabelo
Enquanto
o hipotireoidismo causa queda de cabelo, pele ressecada e unhas quebradiças, o
hiper causa o efeito oposto, aumentando a transpiração e deixando a pele mais
oleosa.
Coração
Os
opostos também acontecem aqui: o hipo baixa a frequência cardíaca, reduz a
resistência ao esforço e eleva o risco de infarto. No hiper, os batimentos
aceleram e pode haver arritmia e palpitação.
Intestino
Um dos
indícios da queda nos hormônios em decorrência do hipotireoidismo é a
constipação. O intestino costuma ficar mais preso, diminuindo a frequência de
evacuação.
Gordura
Por causa
da desaceleração do metabolismo e da retenção líquida, o hipotireoidismo leva a
ganho de peso. No hiper, é usual perder peso mesmo comendo bastante, já que o
organismo fica acelerado.
Olhos
O
hipertireoidismo é mais associado a encrencas ali, como na doença de Graves: os
globos oculares se dilatam e se deslocam para a frente, causando dores, vista
dupla e redução na visão.
Cérebro
Nem os
neurônios escapam da influência da tireoide. No hipo, a concentração pode ficar
comprometida. Enquantoisso, no hiper, a pessoa tende a ficar mais agitada,
irritada e com insônia.
Tem algo
estranho aqui
Outra
preocupação envolvendo essa estrutura alojada no pescoço são os nódulos, massas
que aparecem na região e, em alguns casos, podem ser apalpadas. O médico vai
examinar a área e, se necessário, pedir um ultrassom. A maioria não representa
nenhum susto.
“Só 5 a
10% dos nódulos são malignos. E mesmo o câncer de tireoide tem uma taxa de cura
muito alta”, tranquiliza Ana Christina.
Para
saber se essa formação significa algo mais sério, os médicos pedem uma biópsia:
é realizada uma punção com agulha fina na tireoide para analisar o material
extraído de lá.
Se o
nódulo for benigno, muitas vezes nenhuma intervenção será necessária. É só
acompanhar. Mas, mesmo sem risco de virar um câncer, a massa pode ser volumosa
e causar desconforto para engolir ou respirar. E aí vale a pena removê-la ou
restringi-la.
Uma
técnica pouco invasiva disponível hoje é a ablação térmica percutânea, em que
uma agulha é introduzida com anestesia local e queima os nódulos. O
procedimento nem sequer deixa cicatriz e é alternativa para alguns casos de
câncer, quando um paciente de alto risco não pode fazer a operação de remoção
da tireoide, a mais recomendada.
Por terem
uma evolução lenta e serem detectáveis precocemente, os tipos mais comuns de
câncer de tireoide apresentam taxas de sobrevivência superiores a 95%. “O
diagnóstico tem aumentado nas últimas décadas, mas isso não significa que a
mortalidade está mais alta”, diz a radiologista.
“Ao ouvir
falar em câncer, pensamos que se trata de uma doença agressiva, só que, neste
caso, não é assim”, afirma Ana Christina. A glândula costuma ser retirada e a
reposição hormonal é convocada para a rotina. Mais um exemplo de que, com ou
sem tireoide, o acompanhamento médico coloca o corpo em equilíbrio de novo.
Quem deve
ficar mais atento
Embora
problemas na tireoide não dependam de sexo nem idade, alguns grupos são mais
suscetíveis:
Mulheres
São dez
vezes mais reféns de disfunções na glândula — o que pode prejudicar o sonho de
ser mãe. As alterações costumam pintar na gestação e aumentam em incidência com
a menopausa.
Idosos
Pessoas a
partir de 65 anos devem ficar atentas, mas nem todos os casos de
hipotireoidismo necessitam de tratamento, uma vez que o organismo tende a ficar
mais lento com o envelhecimento.
Bebês
O teste
do pezinho, feito em recém-nascidos, detecta o hipotireoidismo congênito. Se
confirmada, a disfunção deve ser tratada o mais rápido possível para evitar
sequelas e impactos no desenvolvimento.
Casos na
família
Quem tem
histórico familiar de problemas na tireoide e outras doenças autoimunes
(psoríase, artrite reumatoide, diabetes tipo 1 etc.) precisa acompanhar mais de
perto a situação da glândula.
Expostos
à radiação
Ela eleva
o risco de câncer e distúrbios na tireoide caso o indivíduo sofra muita
exposição durante a infância. Os raios ionizantes utilizados em diagnósticos de
imagem não são nocivos.
Profissões
de risco
A
preocupação rondaria pessoas que trabalham expostas cronicamente à radiação.
Mas, com os devidos cuidados, médicos apontam que isso representa menos perigo
que outros fatores.
Alerta:
se não tem problema, para que tomar?
O uso
indevido de hormônios da tireoide, visando à perda de peso ou a um suposto
ganho de energia, pode desregular o funcionamento do corpo todo. Uma das
maiores preocupações dos especialistas é a utilização de cápsulas de T3 para se
livrar dos quilos extras.
O excesso
do hormônio acelera o metabolismo a ponto de beirar os efeitos de um
hipertireoidismo. Como todo medicamento usado sem orientação, há sérios riscos
envolvidos: picos de pressão alta, arritmia cardíaca e até morte.
“Nossa mensagem é: não utilize hormônio tireoidiano para tentar emagrecer ou melhorar o bem-estar e o cansaço sem passar por um médico antes”, reforça o endocrinologista José Augusto Sgar
Postado por Dharmadhannya
Nenhum comentário:
Postar um comentário